terça-feira, 29 de Dezembro de 2009

Lisboa Tejo ( II )

Carlos Alberto não podia deixar de pensar em Araújo, perdido na recepção do hotel, esquivo. Como reconhecem os homens o momento em que são chamados? Em que devem sair da sombra? O elevador age com a precisão dos sábios, mas tudo se resume a um conjunto de sensores, rodas dentadas, circuitos eléctricos e contactos que se abrem e se fecham, tudo se move por arrastamento mecânico. Quem não se move por vontade própria fá-lo por arrastamento.
Que relógio biológico teria Araújo, ou quem lhe ensinara estas coisas? Teria Araújo chegado ao hotel com um grupo de coristas? Esperava bem que não.
Carlos Alberto estava aborrecido.

Dizem que o cheiro primordial é o de um recém-nascido. Nunca lhe fora dado a cheirar os seus filhos acabados de nascer, conhecera-os já lavados e no colo da mãe. Talvez por isso os homens inventam tantas coisas novas que nos trazem novos cheiros impossíveis à mãe natureza. Na realidade apenas se trata da frustração de quem não é capaz de conceber, de ser ele o indutor do cheiro primordial, cálice da vida.

A única ombreira que nos interessa verdadeiramente transpor é a do paraíso e essa é a nossa última porta, todas as outras são de uma forma ou de outra secundárias.

A Carlos Alberto apenas lhe restava como porta da frente a de sua casa. A tranquilidade sem arrojo. A segurança.
Os homens temem falhar o céu, e por isso constroem na terra as réplicas que o seu fraco entendimento lhes permite. A esses paraísos terrenos acedemos por uma porta traseira, a nossa porta da culpa. O elevador era o seu umbral.
Carlos Alberto Drumond estava irritado.

segunda-feira, 21 de Dezembro de 2009

Lisboa Tejo ( I )

Com um relinchar metálico a grade em harmónio fechou-se, a sua protecção estava assegurada. Carregou no último botão e a cabine oscilou antes de iniciar a sua viagem ascendente até ao quarto piso. Carlos Alberto apoiou as costas contra o forro de madeira e desviou o olhar do espelho. Dissera-lhe uma vez um arquitecto que todos os elevadores tinham um espelho ao fundo, que era uma forma de prolongar nele o espaço que deixávamos, iludindo o facto de termos entrado numa caixa, pouco maior do que um caixão. Para ele o elevador não passava disso mesmo, de uma caixa mecanizada, cheiraria a óleo e a circuitos eléctricos sobreaquecidos, se não fosse por aquele forro de madeira. Até os bichos mecânicos têm uma pele. A pele preserva os nossos odores internos, torna-nos sociáveis. Mais do que as folhas da videira com que os nossos primeiros pais se cobriram, fora a pele que os protegera na sua intimidade, doutra forma nunca se teriam chegado a tocar.
Nunca percebera porque, de entre todos os hotéis de Lisboa, o seu pai escolhera o Lisboa-Tejo, um edifício com uma fachada inexpressiva, rectilínea, incapaz de se erguer acima dos outros edifícios que tinha por vizinhos, e, apesar do nome, incapaz de espreitar o Tejo. Apenas a praça da Figueira ficava ao alcance das suas janelas fronteiriças. O seu pai mantinha aí alugada, às expensas do banco, uma suite no último piso.
A opção fora pela discrição à qual não era alheia a dimensão do hotel. Ninguém conseguiria relacionar quem entra e quem sai. O edifício fazia-lhe lembrar uma imensa repartição pública. No quarto piso mantinha o seu pai os encontros amorosos com as suas coristas. Hoje não seria excepção.
Vira o Araújo na recepção do hotel, e este com a sua profissional discrição desviara o olhar. Os homens querem-se anónimos quando temem ter explicações a dar.
Mais do que o hotel, Carlos Alberto estranhara o convite para almoçarem na suite do seu pai. Que teria ele preparado? Porque não almoçavam no restaurante habitual ou no clube dos empresários? Esperava que o seu pai não o surpreendesse com uma orgia servida pelas suas coristas. Não se sentia à vontade para partilhar este tipo de desventuras com o seu pai.
O pai parecia iludir o tempo com estas jovens, como se fosse ainda o estudante regressado de Londres. Seria isso que procurava? Sentir-se jovem outra vez? A vida não se prolonga como os espaços num espelho, somos arquitectos de ilusões, engenheiros de máquinas surpreendentes, mas da vida apenas a sabemos gastar e da pior forma possível, envelhecendo!
Com os olhos perdidos nos desenhos da madeira trabalhada do elevador, alheio ao seu restolhar e leve baloiçar, Carlos Alberto, não conseguia ultrapassar o incómodo que o convite lhe causava. Aquele hotel era uma porta traseira e quem entra por uma porta traseira ou é serviçal ou tem algo a esconder. Sentiu que exagerava. Afinal no banco também os directores e a administração entravam por uma porta das traseiras, longe de olhares indiscretos ou de clientes em busca de uma petição. Sorriu pela primeira vez.
Lembrou-se de uma mendiga que pernoitava no umbral da porta traseira do banco reservada à administração. Irritava-o aquela presença que lhe parecia desprestigiante e mesmo ofensiva à dignidade do banco, como se de uma afronta se tratasse. Mesmo quando não se cruzava com ela sentia-lhe o cheiro e no seu íntimo sabia que ela tinha dormido ali nessa noite. Um dia decidira interpelar a mendiga e propôs-se mesmo arranjar-lhe um apartamento numa água furtada, desde que ela largasse a porta do banco. Esta olhou-o como se o visse pela primeira vez e, com os mesmos olhos com que um dia uma cigana lhe lera a sina, esboçando um sorriso maternal respondeu-lhe:
- Porque havemos nós desejar as coisas do mundo se podemos ser felizes?

continua

segunda-feira, 7 de Dezembro de 2009

O vendedor de sapatos

Cresci conhecendo-o sempre maior do que eu, o já adulto meu primo mais velho. Era o meu herói, aquele que era aceite nas conversas entre adultos, sabia karaté e já tinha estado com uma rapariga.

Tal como o pai, que era chefe da polícia, também ele foi trabalhar para a polícia, não para uma polícia qualquer mas para aquela de que todos receavam pronunciar o nome em voz alta. Trabalhava no aeroporto de Maputo (Lourenço Marques) e lidava com situações muito complicadas. Eu não sabia o que isso queria dizer, mas a um miúdo de treze anos ninguém explica nada.

Não gostava do meu tio. Metia medo às outras pessoas, aos filhos, à mulher e a mim. Por isso sempre mantive uma grande reserva a tudo o que ele dizia. Os seus conceitos de certo e errado estavam para mim irremediavelmente contaminados pela pessoa que ele era.

Veio o 25 de Abril e todos os Pides foram presos e lá foi também o meu primo que afinal era isso que ele era e eu nunca tinha tido a consciência. Os ventos sempre foram implacáveis para com o destino dos homens. Começou-se então a falar na independência de Moçambique e a família assustou-se, o Lito não podia continuar preso. Afinal ele não fizera nada, não era como os outros, apenas verificava passaportes na fronteira do aeroporto. Nunca percebi como, o tão importante emprego do meu primo, estava agora transformado em nada, mas a mim ninguém explicava nada.

Veio o 7 de Setembro e no meio da confusão lá foram libertados todos os presos brancos das cadeias e o meu primo foi para a África de Sul, que aquilo lá era a sério.

E um dia o meu tio apareceu lá em casa, que aquilo na África de Sul é que era bom e que toda a família ia viver para lá, que o Lito tinha arranjado um muito bom emprego, que pertencia a uma divisão da polícia secreta sul africana, que estava a formar um grupo. Escapei-me por pouco a um estalo quando disse, na minha inocência, se não era altura de se deixarem de coisas de polícias, que isso não me parecia uma boa ideia… mas a um miúdo ninguém liga.

O meu primo estava a criar um grupo muito especial com elementos vindos de Moçambique para operações muito especiais, que conhecia o Dick Cheney e o Rumsfeld lá do sítio e daqueles tempos. Que eram visita lá de casa. E que tinha a mulher grávida.

E foi assim de barrigão espetado que a minha prima recebeu a notícia: o Lito sofrera um acidente e fora morto. Não percebi bem esta frase, apenas entendi que o meu primo morrera e que eu não tinha tido a oportunidade de lhe dizer que tudo aquilo era uma loucura.

A minha prima e o seu barrigão lá se apresentaram no escritório para saber com o que contavam e como era aquilo do seguro. Que não, que o meu primo fora morto em Moçambique e que a África de Sul estava em paz com Moçambique e o seguro não cobria operações clandestinas. Mais tarde foi informada de que o marido estava registado oficialmente como vendedor de sapatos por conta própria e que disso não queriam saber mais nada.

E lá foi o meu tio falar com Cheney lá do sitio, que era homem todo-poderoso e visita lá de casa…a quem os astros obedeciam e as leis do universo se curvavam. Mas que não podia fazer nada, que fora um azar, que ele não mandava nada, que lamentava muito.

Quem serve a besta não lhe pode pedir contas.

E lá partiu a minha prima para Portugal, para casa dos pais, com uma mão nas costas e outra sobre o barrigão. Levava consigo uma lição, do pai morto, para o seu filho por nascer. Nós homens e mulheres somos pessoas simples e que na vida estamos por nossa conta, nós, os anónimos vendedores de sapatos. E tudo o resto somos nós a tentarmos ser felizes…

(este conto é uma ficção, qualquer semelhança com a realidade não será fruto de pura coincidência)

quinta-feira, 3 de Dezembro de 2009

O jogador de Xadrez ( V )


O professor Rebordão tomou o seu lugar na bancada improvisada, mesmo em frente a Mendes Ribeiro, o melhor xadrezista do naipe português. Ali estava o único adversário capaz de se opor a Alekhine e, seguramente, também a melhor partida de xadrez de todo o encontro. Tinha pela frente o melhor jogo da sua vida. Sentia a emoção latente de poder ver um génio actuar ao vivo. A única vez em que estivera numa situação como esta fora quando escutara o pianista Sergei Rachmaninoff. Deslocara-se então ao Porto para assistir ao único concerto que o pianista e compositor dera em Portugal, numa oportunidade única, uma vez que este se encontrava a caminho dos Estados Unidos, onde acabaria por ficar a viver.
Tinha-o impressionado o olhar vivo do pianista, as feições correctas e a sua estatura. Rachmaninoff era mais alto do que Alekhine e tinha umas mãos invulgarmente grandes que lhe permitiam abarcar as teclas do piano de uma forma nunca antes ousada. Mais do que o gosto pela música, fora a oportunidade de ver um génio que o levara ao Porto, na realidade não conseguia distinguir Rachmaninoff de um outro pianista qualquer. Como homem de ciência, o professor acreditava conseguir apreciar, como ninguém, estas demonstrações de um intelecto privilegiado. E agora a oportunidade de uma vida voltava a repetir-se: um outro génio estava novamente ao alcance da sua curiosidade educada nas coisas da ciência e da cultura; fora assim que se apresentara no Grémio Literário.
Ambos os génios tinham em comum, para além da nacionalidade, o facto de serem capazes de fixar sequências complexas, Alekhine capaz de reproduzir as jogadas que fizera e as do seu adversário como se um exercício de memória se tratasse, e Rachmaninoff de reproduzir fielmente, à primeira audição, uma composição particularmente difícil. Os génios eram homens de olhos claros e altos, não necessariamente grandes, mas altos. Não admira que entre os portugueses não se encontrasse nenhum génio, faltava-nos estatura. Ele próprio sempre se sentira bem servido de estatura, pelo menos para lidar com os seus alunos pré-adolescentes. O plano do olhar define a forma como um homem se prepara para enfrentar as realidades da vida. Não gostaria de viver num país onde não pudesse encarar os outros, olhos nos olhos, sem ter de inclinar a cabeça para trás, erguendo o queixo e espetando o nariz no ar. Sempre se sentira seguro em relação a si próprio. Cedo deixara crescer um bigode que lhe descia pelos cantos da boca até à pêra, adoptara uma postura direita de militar e uma forma sóbria de vestir. Sentia-se na imagem perfeita do professor moderno. Credível, respeitoso, mas sem ser austero. Considerava-se um bom professor e seguia com interesse as novidades da ciência que lhe chegavam ao conhecimento. Era um homem do seu tempo. Não precisava de ser um génio, pesasse o fascínio que estes lhe despertavam; sentia-se confortável assim por detrás dos seus olhos castanhos.
Para o professor Rebordão, Alekhine estava verdadeiramente no topo. Não só tinha a capacidade de seguir um impressionante número de jogadas por antecipação, como o conseguia fazer em 60 tabuleiros em simultâneo, algo que lhe parecia próximo da magia ou de um truque de prestidigitação.
Gostava de ter estado presente no jantar de gala do Astória e de ter conhecido Alekhine em pessoa, num contacto mais próximo, mas o preço pedido era incompatível com o seu ordenado de professor. Coçou as costas tentando alcançar o seu meio. E pensou que, para apanhar uma camada de percevejos, servia muito bem a pensão da Dona Maria, que sempre ficava mais em conta. Comprara só o bilhete para o grémio. Mesmo assim gastara uma pequena fortuna para poder satisfazer o seu pequeno capricho, o de ver o melhor jogador de xadrez de todos os tempos a disputar uma partida. Como esteta que era, não se deixava seduzir pela quantidade da oferta, e concentrar-se-ia apenas num único tabuleiro. Os portugueses são de refeições fartas, incompatíveis com o prazer da verdadeira degustação, ele sentia-se obrigado a proceder de forma distinta, e fora isso que o levara a optar pelo tabuleiro de Mendes Ribeiro.
Quando Alekhine se sentou, teve a desagradável surpresa de ver desaparecer o tabuleiro atrás do corpo do mestre. Donde se encontrava não conseguia acompanhar o jogo! Foi assim, com alguma relutância, que abandonou o lugar conquistado com a devida antecipação, digna de um estratega, e passou a assistir ao jogo de pé. Mas rapidamente desistiu do seu intento e regressou ao escasso conforto que a bancada lhe oferecia. Definitivamente não conseguia acompanhar o jogo, e quando Alekhine abandonava a sua posição para se dedicar ao tabuleiro seguinte, tinha todo o tempo do mundo para analisar o que fora jogado. Foi então que lhe pareceu reconhecer alguém que, do outro lado da sala, no local reservado ao público em pé, o fixava com particular interesse. Uma luz fez-se no seu cérebro! Era o Araújo, ou pelo menos só o conhecia por esse nome. Que raio fazia o Araújo aqui?
Araújo era um homem de estatura mediana, com um toque de descrição próprio de quem faz da sombra a sua profissão. Vestia-se como alguém que trabalhava num escritório e apresentava uma tez cuidada de quem não se expõe demasiado ao frio ou ao sol. Tinha um queixo robusto e a compleição de um ex-jogador profissional de boxe. Conhecia-o de Lisboa e das saídas com o seu amigo Drumond. Araújo era uma espécie de anjo da guarda que velava por eles em certas noites.
Reparou que afinal a atenção de Araújo recaía toda sobre o homem que se sentava a seu lado, um inglês, completamente desenquadrado e que não parecia estar minimamente interessado no jogo. Era um repórter, pelo menos a julgar pela máquina fotográfica e pelo seu flash, que dispara nervosamente não só sobre os jogadores mas também sobre todos os presentes. Essa actividade foi interrompida quando alguém da organização lhe solicitou que não tirasse mais fotografias uma vez que a eclosão de um sol, a todo o momento, perturbava os jogadores. Acatou a sugestão e deixou-se ficar por ali sentado. O professor já se tinha interrogado sobre que tipo de reportagem faria o inglês uma vez que não tomava nota das jogadas que se iam realizando… Só Alekhine arrastaria um repórter inglês até um encontro de xadrez em Coimbra.No intervalo para almoço, já a maior parte dos tabuleiros haviam perdido os seus jogadores, derrotados por Alekhine; toda a expectativa recaía agora sobre os sobreviventes.

quinta-feira, 26 de Novembro de 2009

O jogador de Xadrez ( IV )

primeiro capítulo



No salão nobre do grémio literário fez-se um respeitoso silêncio, como se o próprio salão sentisse o peso do seu estatuto, ou não estivesse ele coroado com as armas da monarquia. A Alekhine, não lhe agradou que as mesas estivessem tão juntas, mas percebeu que não existia outra forma de se disporem, em fila, 60 mesas mesmo num espaço tão generoso como o daquela sala. Os tabuleiros encontravam-se primorosamente alinhados e Alekhine, abaixando-se, espreitou no seu enfiamento e gostou do efeito visual que encontrou. Tivesse a sorte ditado de outra forma e os tabuleiros teriam sido montados com as peças brancas do mesmo lado. A regra fora que Alekhine sentar-se-ia sempre virado para as janelas que davam para a varanda. Falhasse o sorteio em impor quem jogava com as brancas e Alekhine teria reclamado para si essa primazia e em todas as mesas abriria com a mesma jogada! Mais do que a audácia de tal atitude seduzia-lhe o efeito estético obtido. Todas as peças alinhadas, no seu perfeito lugar, e apenas uma casa vazia deixada pelo peão que dera um passo em frente, isolando-se, e ao mesmo tempo em linha com todos os outros peões de todos os outros tabuleiros. Como um reflexo que se reproduz até ao infinito. Podemos não conseguir alcançar certas amplitudes, mas seguramente que as podemos desenhar.

Rezava a lenda que o jogo surgira na Índia, onde um Marajá, sucumbido pelo desgosto da morte do seu filho, lançara um desafio aos sábios do seu reino e reinos vizinhos, para que lhe apresentassem um jogo que o afastasse da sua dor. Como estava magoado com a sorte, não a queria sobre o tabuleiro do jogo. A sorte é a porta que os deuses usam para nos cutucar o juízo e o Marajá não pretendia sujeitar-se mais aos seus caprichos. Foi então que o sábio Sissa presenteou o marajá com um jogo que apenas dependia do raciocínio do jogador e em que todas as peças se comportavam segundo a sua natureza. Do soldado ao rei, toda a corte cabia no seu tabuleiro de jogo, campo de batalha ou recanto de intrigas.

Escapou ao Marajá o facto de se ter deixado à sorte a decisão de quem abria o jogo e agora Alekhine perdera o efeito visual que o elevaria ao domínio da pura poesia.

O acaso fizera soprar por aquelas paragens uma tempestade tropical, à qual, pela sua destruição, não se lhe podia aplicar a palavra sorte. Por isso se dizia ter chegado em má hora. Já sorte fora Alekhine ter-se cruzado com o conde de Paranhos, quando participava num evento semelhante no Casino do Estoril, embora mais modesto em número, apenas 40 tabuleiros, mas com adversários de maior peso. O conde seduziu o mestre com a descrição da destruição deixada pela tempestade que chegara a Coimbra e logo ali ficou decidido fazer-se um outro encontro em Coimbra para se angariarem fundos. A sedução humana não dispensa a sorte. Talvez o Marajá nunca tivesse saído do seu palácio e desconhecesse que os ventos também podem soprar na nossa direcção. Talvez o sábio Sissa soubesse isso desde o início, mas optara por escondê-lo. Ou não fosse assim tão sábio e desconhecesse que no plano dos afectos os homens não dispensam o que o acaso lhes reserva ou a sorte lhes brinda.

O vento aqui o trouxera. Muito do destino dos portugueses se escrevera no vento. Podiam não ser grandes jogadores de xadrez, mas quem se entrega assim na sua sorte ao vento, conquistando o mundo com a mansidão dos bois com que encheram as velas das suas caravelas, só podia ser um povo de afectos, não admira que entre as gentes lusas florescessem poetas.

Uma vez, um jornal alemão, desafiou-o a escrever um artigo destinado a um público jovem. Não entendeu bem o que lhe fora pedido e em vez de um texto leve sobre a teoria do xadrez, escrevera um conto. Imaginara um peão talhado no mais puro marfim pelas mãos do maior artista daqueles tempos. Sobressaía no tabuleiro como se fosse um general e estava tão orgulhoso de si mesmo que quando abriu o jogo, sentiu que só ele estaria à altura daquela jogada inicial. Deixava para trás um mundo inteiro que dependia de si e à sua frente as forças negras do mal encadeavam-se com o seu brilho. Não havia forma mais perfeita de começar um jogo. Avançou novamente, reclamaria para si uma bandeira, quando, mal se apercebendo, um dos peões negros, vindo de um dos lados, lhe cravava fundo a sua espada, caiu ferido de morte olhando todo o campo que se estendia à sua frente, na sua mão sentia firme a bandeira que nunca chegara a ostentar.

O jornal rejeitou o seu texto. Viria a aceitar outros, considerados mais sérios, sobre a problemática do xadrez e como certos povos não estariam à altura do seu desafio intelectual. Mais tarde arrepender-se-ia de, em matéria de artigos para jornais, não se ter ficado só pelo conto.

Os homens foram feitos para o sonho, por isso alcança mais longe quem se orienta pelos ventos, do que aquele que se fixa nas estrelas ou em cartas de marear.

Teria de pensar no que diria ao jornal local, seguramente pouco interessado num discurso técnico sobre o xadrez, que o colocaria fora do alcance dos seus leitores. Elogiaria Coimbra, os portugueses sentem-se sempre inseguros na presença de estrangeiros e esperam pela sua aprovação. Aprovaria Coimbra, então. Diria que pretendia voltar e talvez subir o Mondego numa barca serrana, quem sabe com uma lavadeira por companhia. Responderia à clássica pergunta: se fosse uma peça de xadrez seria um bispo, porque nos acasos da vida nos metemos sempre por caminhos enviesados, e à cautela, que este era um povo de profundo sentir católico, acrescentaria que no seu país o bispo era substituído por um mago. Que por estas terras eram mais tementes a Deus e que sobre o tabuleiro do jogo não deveria correr a sorte, por isso seria um Bispo se a escolha surgisse.

Alekhine estava pronto para começar a jogar.

continua

sábado, 21 de Novembro de 2009

O jogador de Xadrez ( III )


- A República atingiu-nos como um rastilho. Uma explosão de republicanos caiu sobre nós como fogo de artifício em noite de festa.

O conde de Paranhos relatava esta história com o distanciamento crítico de quem, por condição, se sente acima destes humores políticos, e com um sorriso malicioso prosseguiu.

- Dois jovens, da nossa burguesia local – impunha-se traçar os limites onde as pessoas, por vezes, se deixam iludir na ligeireza do trato – iniciaram uma discussão sobre o destino a dar ao brasão.

D. Nuno defendia que o brasão não devia ser retirado. E D. Manuel, da opinião contrária, achava mesmo que este devia de ser destruído.

Não tendo ganho a contenda resignou-se D. Manuel em continuar a ver o brasão ali mesmo por cima da porta, onde ainda hoje se encontra, e deixou escapar que as paredes serviam para isso mesmo, para ostentarem a decoração da casa, mesmo quando esta era de mau gosto.

D. Nuno, não acreditando no que acabara de ouvir, perante uma tal ofensa aos símbolos da monarquia e em defesa do bom nome da história de Portugal, desafiou o seu adversário para um duelo, ainda lançou a mão ao seu par de luvas, mas D. Manuel antecipando-se enfiou-lhe uma estalada.

O conde de Paranhos riu do gozo que lhe dava imaginar toda aquela cena, onde se atestava de modo indelével, que a burguesia jamais se substituiria à nobreza. E antes que Alekhine aproveitasse a pausa para mudar de assunto, continuou com a sua história.

Acontecia que os contendentes não se punham de acordo sobre quem ganhara o privilégio de escolher as armas para o duelo, se D. Manuel por ter sido desafiado verbalmente por D. Nuno, se este pela via da estalada que recebera.

Não havendo acordo e após alguns insultos, vulgares entre quem não recebeu uma educação de berço, como explicava o conde de Paranhos, seguro de que entre os da sua estirpe nada teria sido assim, lá se decidiram pela cronologia dos eventos e desse modo D. Manuel escolheu como arma o florete. D. Nuno, que teria preferido a pistola, aceitou com relutância.

- Três dias depois, neste mesmo salão, – o conde de Paranhos com um gesto amplo envolveu toda a sala enfatizando a importância história do local onde se encontravam – D. Manuel divertia-se com a total inabilidade de D. Nuno para manejar o florete. Sentindo-se gozado, D. Nuno procurou, com valor, o contacto da arma adversária e ao primeiro sinal de sangue o juiz interrompeu o combate dando a vitória a D. Manuel.

- Mas o brasão manteve-se.

- Sim, D. Manuel acabou por confessar não ter a coragem de retirar o brasão…

- Ficaram amigos? – quis saber Alekhine.

- Ó, sim! Logo que o juiz deu a vitória a D. Manuel e este largou o florete, D. Nuno atirou-se a ele, tendo tudo terminado ao murro e à estalada! Depois disso só podiam ficar amigos.

Alekhine reparou que o conde, no fim, não se deixara rir, o que queria dizer que respeitava a amizade surgida de uma contenda, talvez mesmo de uma noite numa casa de má fama… mesmo entre nobres, existem valores que são comuns a todos os homens. Ser-se nobre é contudo não se deixar contaminar por essa mediania.

Alekhine solicitou ao seu anfitrião que o deixasse só, pois precisava de se concentrar.

- Não sem antes cumprimentar os outros jogadores!

- Mas onde estão eles?

Acompanhado pelo conde, Alekhine subiu os degraus da escada em arco que os levava ao primeiro piso. Aí, um bar servia uma série de salas repletas de curiosos, que haviam comprado o seu bilhete para assistirem ao encontro, rodeados pelos restantes jogadores. Era impossível cumprimentarem-se a todos, pelo que se limitaram a um ligeiro inclinar de cabeças como saudação. Conhecera a maior parte dos seus adversários no jantar de ontem, apenas havia jogado antes contra dois deles. Não existia em Portugal um adversário digno desse nome. Apenas aceitara aquele desafio pelo lado humanitário de angariação de fundos para a ajuda às vítimas da tempestade tropical que, em Fevereiro, atravessara o país, entrando por Lisboa e passando por Coimbra para se esvair aos pés de Espanha. Fora como se todos os ventos que os portugueses haviam aprisionado nas velas das suas caravelas, se tivessem revoltado e decidido regressar para cobrar deste povo os anos de encarceramento a que estiveram sujeitos. Sopraram loucos e em fúria sobre terras onde não existia uma vela para os embalar em consolo de regaço. O resultado fora uma destruição generalizada, arvores caídas, pontes que cederam, telhados arrancados e uma ou outra barraca varrida pela chuva e pelo vento. Uma vaga de solidariedade percorrera o país na medida em que o Estado se mostrava incapaz de acudir a todos e atestando que também os pobres chamam a si a responsabilidade de cuidar dos seus. Alekhine acedera a participar em alguns encontros para angariação de fundos.

E ali estava ele trocando-se de acenos de cabeça com os seus adversários e mais os ilustres convidados. Não tinham cara de jogadores, muitos deles certamente haviam aprendido a jogar xadrez já adultos. Alekhine acreditava que um jogador se formava desde tenra idade e que isso se notava no seu olhar. Partilhava assim com o seu anfitrião a crença num berço; sentia que nem todos os povos estavam ao mesmo nível intelectual. Era o caso dos seus adversários de hoje. Não que lhes sentisse a falta de subtileza, dos que como ele, um dia, haviam desfilado na corte do Czar, acreditava antes tratar-se de algo radical, da mais pesada das heranças, entenda-se a raça. Por isso impusera bater-se em simultâneo contra sessenta jogadores. E tinha-os a todos diante de si. Se erguesse as mãos conseguiria que se ajoelhassem ao seu comando.

Riu com simpatia e segredando um adeus ao ouvido do conde, retirou-se para a sua meditação. Imaginava-se percorrendo as grandes estepes da Rússia que nunca chegara a conhecer, precisava desse sentido de dimensão intemporal que o reclamava como pertença de um mundo superior à mediania rural dos países que visitava. Havia quem se imaginasse em águia ou em voo de pássaro, ele, mesmo em sonhos, precisava de um chão para caminhar, existem homens que só assim se soltam. Voam com os pés assentes no chão que reclamam como seu.


continua


segunda-feira, 16 de Novembro de 2009

O jogador de Xadrez ( II )


Os seus pés ressentiram-se da falta de um cardado mais generoso que lhe permitisse atacar as pedras escuras da calçada com que a rua íngreme se erguia em direcção à Universidade. Aliás, só existiam mesmo duas direcções possíveis, a subir para a Universidade ou a descer para o rio, lá onde as barcaças e as suas gentes de alpercatas calçadas, como formigas atarefadas, descarregavam tudo o que a cidade precisava. O rio era uma fábrica. A partir dele tudo se elevava até à universidade, numa ordem natural com as suas elites sobranceiras ao comum dos homens. Alekhine arrependia-se de não ter trazido umas botas e procurava que o esforço não o fizesse inclinar-se demasiado para a frente, que também ele tinha o seu conceito de ordem e, nele, um senhor caminha sempre de postura direita.

Dois miúdos aproximaram-se a correr e, com uma mal disfarçada vergonha, colocaram-se a seu lado, tiravam-se de medidas espreitando por cima do ombro e erguendo a cabeça até onde Alekhine se findava em altura; seguramente nunca tinham visto um homem tão alto, de olhos claros e um cabelo que se adivinhava ter sido de um louro vivo, agora já meio esbatido pelo persistente sol português. Impecavelmente vestido, Alekhine era a imagem acabada de um aristocrata ou pelo menos assim surgia aos olhos das gentes simples. Os adultos também o olhavam mas com a reserva própria de quem não se mete na vida dos outros; nesta terra, mesmo incógnito, não conseguia passar despercebido.

Escutou atrás de si algumas vozes que o davam como alemão, como se isso fosse um mau augúrio. Encurtou o passo para lhe permitir manter o fôlego, mas manteve firme a sua intenção de vencer os declives, agora já mais vacilantes, denunciando que a rua se preparava para se deitar à porta do Grémio Literário.

O grémio literário era um antigo palácio ajaezado sobre uma encosta. O seu piso térreo erguia-se acima da rua uns quantos degraus e recebia-o na sua fachada com uma série de portas em arco de pedra talhada. Entrava-se para um grande hall de onde partiam duas escadas que, já ao nível do primeiro piso, se encontravam ao centro. Alekhine atravessou o hall e, passando por baixo do ponto onde as escadas, no piso de cima, se uniam, entrou no salão grande que se desenvolvia em toda a extensão do edifício, com a sua ampla varanda impondo-se como um remate suspenso sobre a encosta. Caminhou até à varanda e foi ver até onde a vista se lhe perdia, e à esquerda encontrou o que restava do castelo da antiga cidadela e lá em baixo o Mondego no seu leve serpentear, como o menear das ancas de uma lavadeira.

- Dr. Alekhine!

Um homem bem constituído e de uma barba irrepreensivelmente aparada dirigiu-se-lhe de sorriso aberto. Era o conde de Paranhos, presidente do Grémio Literário, tinham estado juntos na véspera no jantar de gala do hotel Astória. O conde era um homem afável e tirando partido da sua boa estatura, tomou-o pelo braço e trouxe-o de volta ao salão. Para os portugueses o conde seria considerado um homem alto e Alekhine aprendera a ter isso em mente sempre que necessitava de aludir à estatura dos seus anfitriões. Caminhamos sempre sobre os nossos pés mas traçamos o nosso rumo a partir das referências que colhemos em terras, por vezes estranhas, que nos tocam em sorte calcorrear. Não somos de medidas certas, arriscamos azimutes em compassos cegos.

- Gosta do arranjo que fizemos na sala?

Alekhine reparou então numas bancadas de três degraus encostados à parede da entrada e que permitiriam aos espectadores estarem sentados enquanto assistissem ao encontro.

- Aqui deste lado, que dá para a varanda, as pessoas apenas podem permanecer de pé.

O conde de Paranhos parecia ter tudo previsto e estava confiante no sucesso do evento.

Alekhine observou, sobre a porta de acesso ao salão, um brasão, em baixo relevo, com as armas da monarquia, e que conferia um ar majestoso a toda aquela sala. O seu anfitrião deixou-se rir e explicou que estavam no salão principal da Real Sociedade de Leitura de Coimbra.

- Quando a república foi instaurada os antigos sócios depararam-se com a necessidade de mudar o nome e os estatutos da sociedade…

- Foi assim que surgiu o Grémio Literário…

Antecipou Alekhine, suscitando uma pronta correcção do conde de Paranhos.

- Não foi assim tão simples! Fique o meu amigo ciente que por estas armas – e apontou para o brasão – se bateram dois valorosos associados, naquele que foi o último duelo que se deu oficialmente em Coimbra!

Alekhine apercebeu-se que não havia forma de fugir ao relato do sucedido. Acabara de sacrificar um peão, cedera-o para ganhar o à vontade do seu interlocutor; a antecipação do outro, na vida como no xadrez, faz-se sempre em sacrifício, por isso nas grandes batalhas é a infantaria a primeira a avançar. E nada mais é preciso para se escrever a vermelho a palavra vitória.

continua