Alekhine sentiu o frio da manhã esgatanhar-lhe a cara. Era a forma de Coimbra lhe dar os bons dias. Ergueu os olhos em busca do sol, que sabia escasso naquela manhã de Maio, tinham-no avisado que o interior português era mais apagado, no sol e na vida. Só o frio parecia desafiar a pacatez de um país tranquilo pendurado no fim da Europa, pequeno rebordo de Espanha. Um país esquecido pela guerra.
As cidades pareciam-lhe todas iguais, surgiam-lhe sempre debruçadas sobre um rio
O porteiro do hotel aproximou-se solícito:
- Doutor, peço-lhe uma caleche?
Os portugueses eram cordatos com os estrangeiros ou com quem, pela sua postura e forma de vestir, se insinuava pertencer a uma classe superior. Apesar de cultivarem uma humildade salobra, os portugueses mantinham o orgulho de quem dera novos mundos ao mundo, e não aceitavam colocar-se ao serviço de qualquer um, por isso a fasquia fixava-se de doutor para cima. E assim, Alekhine era o senhor doutor, seria um príncipe exilado se insistisse.
Com um gesto da mão dispensou o porteiro, ainda não se sentia à vontade com o português, língua em que já começava a dar os primeiros passos e por vezes lhe adocicava a boca, fazendo-lhe recordar o seu russo nativo. Apetecia-lhe caminhar. Quando abandonasse a larga avenida junto ao rio e metesse pelas ruas mais estreitas, teria de manter as janelas debaixo de uma curta vigilância, pois por estas paragens era frequente as pessoas lançarem o seu lixo directamente para a rua ou nela esvaziarem todo o tipo de recipientes.
Atravessou a avenida para o outro lado e espreitou o rio. Surpreendia-se sempre com os rios; fora do seu país não lhes encontrava a energia do degelo. Por aqui, a cada inverno, os rios limitavam-se a engordar, a esmagar de forma obesa as suas margens, mas mantinham a calma de quem não sente o verdadeiro apelo do mar. Duas barcas serranas estavam presas à margem, dois homens atarefavam-se a descarregar uma delas. Os rios por aqui haviam-se deixado domesticar e tinham-se transformado em estrada, não admira que este povo tenha tentado fazer o mesmo com o mar. Alekhine reparou no varapau que se erguia no meio da barca, em forma de mastro e que servia de suporte a uma vela, agora recolhida. Meditou como regressariam estas barcas rio acima, em contra-corrente, nos dias em que não fizesse vento. Certamente que utilizariam bois para as puxar a partir de uma das margens. Enganava-se Alekhine, eram os próprios elementos da tripulação que se substituíam às bestas e puxavam a barca rio acima à corda. Dizia-se por aqui “puxar o barco à sirga”. Ainda bem que o desconhecia ou teria encontrado mais um motivo para repreender este povo. Não seria muito difícil dispor de uns bois para fazer esse trabalho. Este sempre fora um país que dispensava a inovação à custa da exploração da mão-de-obra barata.
Os mestres mais experientes sabiam que nem sempre podiam deixar ao vento o trabalho de puxar a barca rio acima. Quando o rio se apertava de azedumes, era preciso recolher a vela e puxar o barco à sirga. Seria demasiado arriscado deixar o barco à mercê dos caprichos dos ventos, que no Mondego sopram perigosos e não conhecem direcção, nem se dão conhecer. Não são como os ventos que sopram por esses mares a fora, que têm o instinto migratório das aves e se deixam aprisionar nas velas dos grandes navios, com a mansidão dos bois que, pelas terras que Alekhine conhece, a partir das margens, puxavam os barcos rio acima.
O homem que aprende a domar as obras da Criação, espalha mansidão por esse mundo fora.
Deu costas ao rio e admirou a fachada do Astória. Era sem dúvida um edifício imponente, em pedra branca rasgada por amplas janelas debruadas a varandins de balaustradas em pedra. Informaram-no, à chegada, ser aquele hotel uma das jóias da arquitectura dos anos 20 e que do seu quarto podia adormecer abraçado ao Mondego; o que lhe não sugeriu propriamente uma imagem de conforto, mas desculpou o concierge, certamente esforçado em demonstrar a tão ilustre visitante que, na cidade dos estudantes, a cultura se respira também atrás de um balcão de recepção de hotel.
Baixou os olhos e fixou-se em duas mulheres que passaram por ele à conversa. Levavam à cabeça uma trouxa cheia de roupa suja e os homens da barca saudaram-nas efusivamente. Alekhine percebeu que aquelas mulheres já estavam atrasadas para começarem a tratar do almoço. Levavam à cabeça a roupa que de regresso ao seu lugarejo lavavam para a trazerem de volta na próxima viagem. Reparou nas alpercatas que traziam calçadas; este calçado, com que os pobres contornavam a lei que acabara com os pés descalços, não passava de uma sola tosca com uma tira para a prender ao dedo grande do pé. Não pareciam ser nada confortáveis e não ofereciam qualquer protecção. Realmente Salazar não só mantivera o país fora da guerra como acabara com os pés descalços, só mesmo a miséria lhe parecia resistir…
Aquelas alpercatas ainda lhe pareciam mais rudimentares do que as que vira em Lisboa. A polícia mantinha uma certa tolerância ao não cumprimento da lei dos “pés-descalços”, em particular no que se referia às mulheres e crianças. Seria mesmo discutível se as mulheres do povo deveriam andar ou não calçadas.
Haviam-se revoltado os mestres das barcas contra esta imposição abusiva do estado que, não erradicando a pobreza, comprometia muitos postos de trabalho e o sustento das respectivas famílias, uma vez que nada mais lhes restaria, para salvar as barcas, do que dispensar parte da sua tripulação. O país precisava dos seus pés-descalços para alimentar o seu povo.
A pedra branca do Astória acolheu o sol, se não fosse pelo seu ar clássico seguramente que todo o edifício se teria espreguiçado. O rio, atrás de si, também se não fosse por aquelas duas barcas, os seus homens e mulheres. A natureza sempre foi tímida na presença dos homens, pelo menos quando não está zangada e se deixa acordar em toda a sua fúria.
Era domingo e o rio despira-se de toda a sua azáfama que constituía o seu traje de trabalho e vestira-se de domingueiro, liso e calmo como as vestes de um bispo, mas de um cinzento-escuro sem brilho, nem espelho, de quem se mantém alheio à importância de que fora investido. Ontem, quando chegara, o rio fervilhava de actividade, de barcaças e canoas. Coimbra vivia no seu rio, não admirava que toda a cidade tivesse sido construída a espreitar o Mondego. Era como se fosse uma imensa barcaça que um dia, deixando o rio, se refugiara numa das suas margens. Também por aqui os homens seguem o seu destino à sirga.
Alekhine empreendeu a sua viagem até ao grémio literário.
(continua)

33 comentários:
atenta a Alekhine....
aguardo
suspensa
o devir
.
um beijo
Devemos temer o devir... Bjnhos
Os portugueses eram cordatos com os estrangeiros ou com quem, pela sua postura e forma de vestir, se insinuava pertencer a uma classe superior. - Sempre achei isto, de facto.
Esgatanhar-lhe??? Que é isso?
Tem por sinónimo agatanhar e arranhar, é um termo de origem alentejana mas fortemente embebido na língua portuguesa.
Gosto da narrativa.
E do fôlego de quem se pode aventurar no romance, se não o fez ainda...
Abraço.
tenho de ser curto, não sei comentar... gostei das pinturas na forma de palavras.
Nil, estamos nessa, tentando...
Daniel, sempre comentaste e saís-te bem...
"Este sempre fora um país que dispensava a inovação à custa da exploração da mão-de-obra barata."
A tradição mantem-se.
Vou seguir o Alekhine, mas gostava de saber novas do Congresso.
Um povo deve preservar as suas instituições. Quanto ao congresso talvez prepare um post sobre o tema... mas de momento estou sem tempo...
Eu juro que fiz um comentário a este post, que presumo se terá perdido.
Em termos muito favoráveis claro, e não é nenhum favor de amigo.
Lembro-me de referir o meu desconhecimento dos 'pés-descalços'. Quem diria que foi por decreto que deixámos de ser uns pobretanas'.
Faz alta um decreto que combata a corrupção para deixarmos de ser uns 'pés-descalços' na cauda da Europa.
Mas um governo cheio de imaginação ainda decreta que somos os primeiros.
Com propaganda tudo se consegue.
Mais uma pérola, um momento de grande qualidade, cheio de poesia, humanidade, beleza, sensibilidade, conhecimento, compreensão; esta escrita é tridimensional, não desperta uma pintura no leitor, transporta-o para o local e dá-lhe olhos de ver o que os seus não sabem ver.
UFO, não evoluímos muito em matéria de combate à pobreza...
Alf, cuidado com os elogios (embora inteiramente merecidos, reconheço...), que eu ainda fico preguiçoso! ;)
adoro jantar no grémio literário.
Como sempre, notável.
Jinhos
Temos que combinar um dia. ;)
Excelente!
Bons pormenores; vou ficar atenta... adoro jogar xadrez!
Beijos
Tia, a sério? Pois vou precisar da tua ajuda...
Quando quiseres! Adoro aquela angustiosa expectativa do xadrezismo...
Um prazer? A minha dama fazer um xeque-mate ao Rei...
As damas fazem sempre xeque-mate à nossa carteira... mas enfim, ficam desculpadas pelo prazer que isso lhe dá...
Que comentário mais redutor...!!!
Mas também, de que vos serviria uma carteira bem recheada sem uma mulher por perto para lhe dar o devido uso?!
Deviam estar gratos :-)
:P
Se estás "nessa", desejo-te muita força de vontade e paciência. Porque o saber da ferramenta da língua, já tu dominas.
Abraço.
Obrigado pelas palavras e sobretudo pelas leituras, um abraço.
Vou seguir....
Está em lume brando...
Vim espreitar as "jogadas de desambiguação" mas parece que o jogo ainda nem começou...
Xadrez demora...
Estou a aquecer as peças... e a rainha está a retocar a maquilhagem!
Estou intrigada.
Tens de me explicar a tua relação com Coimbra...
:S
mas... escapam-te pormenores.
ANTÓNIO:eu vivo a dois passos de Coimbra: COMO É QUE VOCÊ SEINTEGRA ,ASSIM, NESTA CIDADE? ESTUDOU LÁ? CURIOSA...
PASSO AO TEXTO DO ALEKHINE:O SEU NARRADOR, APARENTEMENTE DISTANTE, É ,APESAR DE TUDO, UM NARRADOR OMNISCIENTE!ELE ESTÁ "DENTRO" DA PERSONAGEM! ELE CONHECE A PERSONAGEM ATÉ AO ÂMAGO!ESTE TEXTO TEM QUASE TODAS AS CARACTERÍSTICAS DE UM CONTO: INTRIGA, UM NARRADOR , UMA PERSONAGEM PRINCIPAL E VÁRIAS SECUNDÁRIAS OU ALUDIDAS, ESPAÇO, TEMPO, CARACTERIZAÇÂO DE PERSONAGENS...
FALAS DE COIMBRA E DO RIO "DESPIDO" DE AZÁFAMAS...LINCUAGEM POÉTICA, EM PUJANTE PROSA...O NARRADOR QUE PRETENDES QUE SEJA DE 3ªPESSOA, IDENTIFICA-SE COM O "ANTÓNIO", O IMPLUME...
E MAIS NÂO DIGO, PORQUE TENHO A SENSAÇÃO DE TER NA MINHA FRENTE UM ASTUTO ESCRITOR.
BEIJO DE LUSIBERO
Fa, ai, ai... a reclamar a exclusividade sobre Coimbra... é claro que a culpa é de Alekhine, afinal ele é apenas um visitante de passagem em Coimbra...
Lusib. Ah! Os segredos do escritor são insondáveis... já os do leitor astuto são perigosos. Poderosa radiografia que aqui deixaste! Pois convido-te a acompanhares-me nesta aventura. Bjnhos
PS: Não estudei ou vivi em Coimbra.
Um texto repleto de memórias do meu avô. Dele ouvi as histórias que aqui contas. As barcaças no rio, os pés descalços, as lavadeiras...
Eu não sou propriamente da idade do teu avô, mas não andarei lá muito longe...
Não foi isso que eu quis dizer...
;))
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