Mesmo que eu fosse eterno prolongaria a minha vida um pouco mais, tal como as reticências prolongam uma frase em desejo de insinuação, lapso de tempo entre o destino traçado e o sonho. Percurso não linear, trémulo como a indecisão de um bebé explorando os seus primeiros passos. Grito de pássaro, que rasga os céus, e não o segue da mesma forma que a sua sombra.
O silêncio, no fim de um desabafo, pode ser um grito e acompanha-nos em forma de voo. A sombra agarra-se ao chão, recusando-se ser espelho ou eco. É o ponto final de todo o meu ser. Não lhe confio os meus segredos.
A um ponto final, curto, seco e tosco falta-lhe toda a poesia do mundo que está nesse intervalo entre o primeiro e o segundo ponto, no terceiro já ultrapassámos o limite de todos os céus possíveis. A eternidade é logo ali…

19 comentários:
Olha... adorei esta tua reflexão. Quem me costuma ler, sabe que uso e abuso das reticências e adoro as possibilidades inerentes ao seu uso!! Gostei muito, não só pelo conteúdo, mas na forma como te revelas e nos revelas a sensualidade, a poesia e eternidade do que está para além desses pontos finitos, tão infinitos... :) Beijinho
Eva, finalmente uma alma gémea...
Na verdade... quando falta a poesia
os céus são apenas azuis
quando as nuvens se distraiem
Abraço
Tiraste-me as reticências do teclado...
Uma delícia de poesia. Sem reticências...
Mar, sem dúvida.
Fa, obrigado. Inventei um teclado novo.
"prolongaria a minha vida um pouco mais" - mas só mesmo um pouco. Na eternidade, um segundo é igual a um milhão de anos, ou dez milhões, ou mil milhões...
Muitas vezes, nos assustamos com a ideia de eternidade, depois da nossa morte. E esquecemo-nos de que, antes do nosso nascimento, já houve uma eternidade, que também não vivemos.
Cristina, mas que pensamento tão profundo, tens de o usar num dos teus livros senão roubo-to já.
não uso...muito...as reticências...
talvez sejam eternas e os pontos, finais
mas também há pontos ternos e dizer, por exemplo
o silêncio.
é tão bonito!
este é o meu eco, depois de escutar o seu
um abraço
manuela
Manuela, gostei muito do seu eco.
Olha, ando a pensar utilizá-lo no meu blogue, depois de o escrever, também gostei :)
Excelente texto de reflexão.
Gostei muito.
Bom fim de semana, caro amigo.
Um abraço.
Cristina, faz isso mesmo.
Nilson, obrigado, um abraço.
tenho duvidas que a eternidade seja logo ali.
É só um bocadinho mais à frente.
cada vez que ponho umas reticiências no fim duma frase fico a olhar para elas.. nelas está todo o imenso que fica por dizer... depois corto, digo para mim «só os tolos usam reticiências»... seca fica a frase, sem sonho nem futuro, fechada em si mesma... volto a pôr os 3 pontinhos... depois penso "não, assim fica infinita a frase, assim não cabe na porta de ninguém, assim não chega a destino nenhum" ... e corto... e ponho... e olha, fica como calha.
Belíssima reflexão a sua!
Há qualquer coisa nas reticências.... é verdade :)Muitas eternidades, talvez!
Por acaso hoje em dia não uso na poesia, mas uso e abuso quando escrevo aos amigos :)
Beijinhos, António
Alf, o importante é entrar no coração do destinatário.
Virgínia, então espero pelas tuas reticências...
Mesmo não sendo eterno, prolongar a vida um pouco mais, com três pontos que nunca são finais, é aceitar essa continuidade infinita que, também concordo, está logo ali.
Um abraço
Uma poetisa iria entender-me...
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