Quinta-feira, 8 de Setembro de 2011

A eternidade é logo ali...

Mesmo que eu fosse eterno prolongaria a minha vida um pouco mais, tal como as reticências prolongam uma frase em desejo de insinuação, lapso de tempo entre o destino traçado e o sonho. Percurso não linear, trémulo como a indecisão de um bebé explorando os seus primeiros passos. Grito de pássaro, que rasga os céus, e não o segue da mesma forma que a sua sombra.

O silêncio, no fim de um desabafo, pode ser um grito e acompanha-nos em forma de voo. A sombra agarra-se ao chão, recusando-se ser espelho ou eco. É o ponto final de todo o meu ser. Não lhe confio os meus segredos.

A um ponto final, curto, seco e tosco falta-lhe toda a poesia do mundo que está nesse intervalo entre o primeiro e o segundo ponto, no terceiro já ultrapassámos o limite de todos os céus possíveis. A eternidade é logo ali…


19 comentários:

Eva Gonçalves disse...

Olha... adorei esta tua reflexão. Quem me costuma ler, sabe que uso e abuso das reticências e adoro as possibilidades inerentes ao seu uso!! Gostei muito, não só pelo conteúdo, mas na forma como te revelas e nos revelas a sensualidade, a poesia e eternidade do que está para além desses pontos finitos, tão infinitos... :) Beijinho

antonio ganhão disse...

Eva, finalmente uma alma gémea...

Mar Arável disse...

Na verdade... quando falta a poesia

os céus são apenas azuis

quando as nuvens se distraiem
Abraço

Fa menor disse...

Tiraste-me as reticências do teclado...
Uma delícia de poesia. Sem reticências...

antonio ganhão disse...

Mar, sem dúvida.

Fa, obrigado. Inventei um teclado novo.

Cristina Torrão disse...

"prolongaria a minha vida um pouco mais" - mas só mesmo um pouco. Na eternidade, um segundo é igual a um milhão de anos, ou dez milhões, ou mil milhões...

Muitas vezes, nos assustamos com a ideia de eternidade, depois da nossa morte. E esquecemo-nos de que, antes do nosso nascimento, já houve uma eternidade, que também não vivemos.

antonio ganhão disse...

Cristina, mas que pensamento tão profundo, tens de o usar num dos teus livros senão roubo-to já.

manuela baptista disse...

não uso...muito...as reticências...

talvez sejam eternas e os pontos, finais

mas também há pontos ternos e dizer, por exemplo

o silêncio.

é tão bonito!

este é o meu eco, depois de escutar o seu

um abraço

manuela

antonio ganhão disse...

Manuela, gostei muito do seu eco.

Cristina Torrão disse...

Olha, ando a pensar utilizá-lo no meu blogue, depois de o escrever, também gostei :)

Nilson Barcelli disse...

Excelente texto de reflexão.
Gostei muito.
Bom fim de semana, caro amigo.
Um abraço.

antonio ganhão disse...

Cristina, faz isso mesmo.

Nilson, obrigado, um abraço.

Daniel Santos disse...

tenho duvidas que a eternidade seja logo ali.

antonio ganhão disse...

É só um bocadinho mais à frente.

alf disse...

cada vez que ponho umas reticiências no fim duma frase fico a olhar para elas.. nelas está todo o imenso que fica por dizer... depois corto, digo para mim «só os tolos usam reticiências»... seca fica a frase, sem sonho nem futuro, fechada em si mesma... volto a pôr os 3 pontinhos... depois penso "não, assim fica infinita a frase, assim não cabe na porta de ninguém, assim não chega a destino nenhum" ... e corto... e ponho... e olha, fica como calha.

Belíssima reflexão a sua!

Virgínia do Carmo disse...

Há qualquer coisa nas reticências.... é verdade :)Muitas eternidades, talvez!
Por acaso hoje em dia não uso na poesia, mas uso e abuso quando escrevo aos amigos :)

Beijinhos, António

antonio ganhão disse...

Alf, o importante é entrar no coração do destinatário.

Virgínia, então espero pelas tuas reticências...

Maria João disse...

Mesmo não sendo eterno, prolongar a vida um pouco mais, com três pontos que nunca são finais, é aceitar essa continuidade infinita que, também concordo, está logo ali.

Um abraço

antonio ganhão disse...

Uma poetisa iria entender-me...