Sexta-feira, 23 de Setembro de 2011

A sombra

Fará sentido poético escrever que o sol arde no firmamento e nos ilumina com o seu calor irradiante? Dizer “amo-te” quando se está apaixonado? Dizer “estou triste” quando se sofre?

O amor que brota da paixão não tem esse mistério. Só fará sentido dizer “amo-te” nas relações carnais, em deboche estético e moral. Dizer “é para o teu bem” quando infligimos a dor. Viver enquanto nos reinventamos, amar enquanto estamos perdidos e sorrir enquanto formos silêncio.

Do sol apenas somos a sua sombra.

26 comentários:

Mel de Carvalho disse...

dizer, o que quer que seja, implica a colocação dos sentido. e, se é certo que somos sombra, igualmente certo é que, na sombra e só na sombra, o sol tem espaço e se rutila ...

abraço daqui, António
gosto destas sombras luminosas que me colocam a pensar

Mel

antonio ganhão disse...

Mel, foi um prazer acompanhar-te nesta tua reflexão. As pessoas esgotam-se na palavra amar como se ele encerrasse em si o fim de uma discussão. Dizem: amo-te. E acreditam ter escrito um poema. Um abraço.

OUTONO disse...

Caríssimo autor Antonio Ganhão.
Permita-me discordar totalmente do seu texto, que apesar de poético na arquitectura, tem danos de força maior, no expressar catedrático que afirma e, não se justifica! Logo engenharia passível de ruir!
Entendo o seu amor. Creia, seguramente que não é amor, porque engloba um pensamento de dizer ou sentir, para exclamar ou praticar após uma reflexão. Nada mais errado!
"amor é fogo que arde". Já leu seguramente caro Autor.
Amar é a exaltação em qualquer momento triste ou não dos sentimemtos ditados pela alma. Amar ou dizer amor é acto nunca pensado, porque amar, é o correr livre de sentimentos como um rio ávido de chegar à foz e, ainda mal nasceu . Para amar, nem é preciso Sol ou luar. Basta o momento, a seta que "fere" o coração com orgulho, na "dor" do prazer.
Eu não penso...quando amo. Penso depois, como continuar. Que me importa se digo que o Céu é o limite da minha loucura de amor, se toda a gente sabe que o Céu é o limite da loucura? Que me importa se não estou a fazer amor e, disser - AMO-TE - com o meu silêncio, ou em grito de voo rasante em qualquer jardim ou autoestrada mesmo que esteja só? Que me importa escrever, dizer ou sentir poesia no acto de amar, mesmo que seja em rasgos de gatafunhos infantis, na cegueira de ser criança pura e livre?
Caríssimo autor, compreendo o seu amor, mera provocação de pensamento libertino, porque creio não amará como diz. Coisas de prosadores que inventam o que nunca poderá ser inventado - a forma ou a química do amor, porque depende da reacção física anímica e até soalheira de quem ama.
Caro Autor, deixe a poesia do Amor, ou do verbo Amar ser verso livre, mesmo quando não se escreve...
Com estima e admiração,
Um homem que ama o Outono , mesmo quando o não é.

antonio ganhão disse...

Meu caro Luís Outono, que belo momento aqui nos deixaste.

Em minha defesa, cito D. Quixote:
"essa é a beleza do que pretendo; pois enlouquecer um cavaleiro andante com motivo tem mérito nenhum: ponto alto está em perder o juízo sem motivo e dar a entender à minha dama que se faço isto sem causa - que faria se a tivesse?"
Um abraço.

manuela baptista disse...

não faz sentido o que é sentido

todos os sentidos são enganadores os poetas fingidores?

quando digo, estou triste, estava

fico assim menos triste


a sombra deste seu pensamento, é humildemente verdadeira, António

um abraço

manuela

antonio ganhão disse...

manuela, obrigado pelo teu testemunho em registo poético. Bjnhos

Cristina Torrão disse...

Escrever que "o sol arde no firmamento e nos ilumina com o seu calor irradiante" é um cliché e não tem sentido poético nenhum. Dizer "amo-te" quando se está apaixonado, ou "estou triste" quando se sofre, faz sentido, se temos vontade de o dizer. A opção é nossa. São expressões simples, que muito dizem, quando ditas com sinceridade. O verdadeiro amor é incondicional e não exige nada em troca. Se dizemos "amo-te", ou "estou triste", a fim de manipular alguém, não estamos a ser sinceros. Dizer "é para teu bem" quando infligimos a dor não tem, para mim, sentido nenhum. É também manipulação.

antonio ganhão disse...

Cristina, não serão os poetas os supremos manipuladores?

Cristina Torrão disse...

Talvez! E nem só os poetas, talvez todos os escritores sejam manipuladores. Mas trata-se de uma manipulação "impessoal", que nos leva a reflectir. Eu apenas rejeito a manipulação sentimental por parte daqueles que nos são próximos.
Não será fácil evitar uma certa manipulação nas relações pessoais, mas há limites.

antonio ganhão disse...

Os limites alimentam a moral e essa é volúvel, não resiste à sabedoria do tempo.

Nilson Barcelli disse...

A poesia só faz sentido pelo olhar que temos das palavras.
Necessariamente diferente de cada olhar...
Caro amigo, tem um bom resto de domingo e boa semana.
Abraço.

antonio ganhão disse...

Nilson, obrigado pelo testemunho. Abrço

Eva Gonçalves disse...

Dizer "amo-te" é sempre um poema... se faz ou não sentido, depende de quem ouve... :)Bjo

Maria João disse...

Nem de propósito, António. Acredite que foi mera coincidência!

O sentido poético de tudo, não está na forma do que se diz mas no conteúdo do que se sente. Dizer " Amo-te" pode, por si só, ser um poema, se o uso da palavra não for um mero exercício linguístico.
Quando dizemos o que somos, na complexidade do que sentimos, não há palavras inúteis.

Um beijinho

antonio ganhão disse...

Eva, o mérito da nossa poesia fica assim para quem nos escuta? ;) bjnhos

Maria João obrigar o poeta à sinceridade não será limitar-lhe a sua liberdade? ;) bjnhos

Mar Arável disse...

Na verdade relativa de todas as coisas
somos todos uns fingidores
Um dia escrevi

"Hoje acordei a fazer poemas
ou quase nada"

Que fazer?
Talvez respirar por guelras
e já não é pouco.
Abraço

Pata Negra disse...

eu nunca digo "amo-te", ajo sempre! deve ser por isso que consigo conversar melhor com a lua do que com o sol!
Um abraço ao anoitecer

Daniel Santos disse...

profundo.

antonio ganhão disse...

Mar, o amor é um fingimento doce e sincero.

Pata, a lua permite-nos expor um pouco mais.

Daniel, conciso.

alf disse...

antonio, concordo inteiramente consigo e penso que os comentadores que o contestaram apenas identificaram como tal o amor que brota da paixão, o amor que é também desejo - não o amor a que você se refere.

parece que os Grego tinham 32 palavras diferentes para designar todas as variedades de amor e paixão; aqui, você distingue dois tipos de amor, o que carece de afirmação porque é posse e o que não pode ser afirmado porque é dádiva.

antonio ganhão disse...

Alf, adorei a frase final. Um bom remate para a sua reflexão.

canto dos sonhos disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
canto dos sonhos disse...

ANTONIO ESTOU VOLTANDO E FICO FELIZ EM VER QUE VC ESTÁ LANÇANDO SEU LIVRO.
QTO TEMPO,MAIS ESTOU DE VALTA E AGUARDO SUA VISÍTA EM MEU BLOG OK? BJS DE CARMEN FRADE!!!

antonio ganhão disse...

Carmen, obrigado.

Virgínia do Carmo disse...

O sentido da poesia é virar-nos do avesso. E não há nehum sentido nisso. A não ser o de sentirmos uma beleza imensa a nascer-nos por dentro. Será isso um sentido? Ou apenas um estado de graça?
Não sei...

Beijinhos António

antonio ganhão disse...

Mas olha que faz sentido o que dizes. Bjnhos